Cartas de Santa Cruz | O Primeiro Ponto

O cheiro de pão assado na hora, logo de manhã, chegava até a janela do apartamento de Marcelo, no segundo andar do Edifício Maria Antonieta. A porta lateral da padaria de Seu Afonso funcionava como seu despertador biológico, já que há anos não conseguia viver com outros tipos de alarmes. A vida, sempre inundada de adrenalina, de um investigador de polícia, não permitia tolerâncias excessivas para coisas irritantes.

Vida ansiosa sim, mas, por incrível que possa parecer, previsível. Trajes religiosamente passados por uma diarista experiente, as mesmas roupas para o trabalho de investigação em campo, o mesmo percurso pelas supervias congestionadas de São Paulo, onde se aglomeravam, diariamente, centenas de veículos a cada saída de vias marginais, com pessoas ora mergulhadas em seu transe urbano, ora em vias de surto psicótico no próximo minuto.

Marcelo acordava, abria os olhos, não acreditando que a segunda-feira havia chegado, enfim. Mesmo ele não folgando em quase nenhum de seus domingos, a segunda-feira tinha uma mística diferente, aterradora, de recomeço dos dramas diários de todas as pessoas. Se domingo é o primeiro dia da semana, e Deus começara aí sua profissão de Criador Universal, talvez tivesse ficado em dúvida acerca de sua vocação quando chegara a segunda-feira. Sim, se Deus podia sentir preguiça, ele não seria condenado por isso. Aliás, a preguiça nem figurava entre os pecados capitais citados pela Igreja.

Reabria os olhos, querendo desacreditar os raios de sol que perpassavam, perseverantes, as cortinas de seu quarto, que mais parecia um sarcófago, de tão protegido da luz como costumava ser. Quando, enfim, chegava ao banheiro para sua higiene, olhava-se no espelho e lembrava-se de que seu rosto merecia férias, que seus cabelos precisavam ser tingidos e que seus dedos não tocavam paisagens rústicas e intocadas, tal como sonhava quando adolescente que desejava ser um fotógrafo de expedições.

Preparava-se para ir atrás de soluções para crimes como um lorde que se prepara para ir à guilhotina. Lembrava-se sempre:

– Já que moro no Edifício Maria Antonieta, nada melhor que se arrumar à moda de Luis XIV!

Às vezes, ele se ressentia do fato de ser tão meticuloso, seqüela que considerava grave ameaça de transtorno mental futuro. Mas, quem, trabalhando num mundo louco em forma de metrópole, não acabaria transtornado? Por isso, achava que suas férias tinham de ser em dobro e que sua aposentadoria deveria ser apressada, sob risco de nunca gozá-la. De alguma forma, no entanto, aquele ritualismo diário trazia um certa paz, que mitigava suas frustrações e garantia a estabilidade mental numa corporação (a Polícia) em que somente os fortes (e espertos) sobrevivem. Ser honesto não bastava; era preciso ser surdo e mudo, e para isso também era necessário um certo treinamento.

Depois de celebradas em sua mente, suas frustrações eram esquecidas, por ora, quando entrava no carro e subia para a saída da garagem do prédio em que morava. Pronto! Ele escolhera ser policial, e a Fotografia pode vir a ser, quando muito, um hobby de quem não tinha mais nada a fazer, durante a aposentadoria. Não podia se lamentar por estar, naquele momento, mergulhando no mar de estresses das ruas de São Paulo. As cabanas do Taiti e as paisagens poéticas do deserto do Mar Morto não estavam mais ao alcance.

Ele se lembrou que naquele dia, o último de Outubro , talvez a sorte lhe sorrisse e o Comissário de Polícia pudesse anunciar a liberação de suas férias atrasadas. Já contava com dois meses de férias atrasadas e uma licença de um mês como prêmio. Aquele pensamento lhe aliviava a tensão, e lhe fazia esquecer que aquele trabalho (e todo trabalho dignifica o homem) não era o que sonhara nem Direito a vocação que lhe tirava o sono.

Sua namorada, Verônica, era uma moça paciente, além de extremamente apaixonada por ele. Enchia-o de mensagens ao celular, não importando o quanto demoraria para que seus afazeres e frustrações deixassem-no à vontade para marcar um encontro, falar de seu amor e de seus projetos. Assim mesmo, paciente, afligia-a o fato de que uma Guerra Interior aproximava-se daquele rapaz genioso e ansioso por conhecer todos os porquês e todas as causas. Intuição feminina? Quem sabe. A faculdade de Relações Internacionais a fez perita em contar os dias e horas longe de qualquer um dos raros sorrisos de Marcelo, como se estivesse em missão diplomática no Vietnã, bem como todos os e-mails não respondidos à procura de um sinal seu de vida.

Eterna frustração! Era o que sentia. Sentia-se frustrado, sobretudo, por não poder além das cortinas das múltiplas possibilidades que sua Vida já lhe oferecera. A própria palavra Eternidade denotava o sentido daquilo que não muda.

– Se Deus é Eterno, então Ele é um chato, é careta, e a Vida d’Ele deve ser uma eterna tarde de sábado na varanda. Ficou decrépito e deixou-nos como herdeiros de sua Criação idiota! Agora fica lá, em algum reduto cósmico, a ouvir músicas pra dormir da Nova Era.

Seu carro pouco conseguia avançar naquela manhã por causa de um acidente na entrada de São Paulo, vindo de Taboão da Serra. Já estava atrasado, e não tinha nenhuma sirene à disposição para poder abrir caminho, simulando uma ocorrência. E mesmo que tivesse, não poderia deixar de lembrar de quando fez isso e lhe negaram passagem. Semi-revoltados, motoristas à sua frente alardearam: “Você é policial? E nós, com isso? Não consegue passar? Voe! Vá lá, Super-Homem! Voe e salve a humanidade!” Como encontrava-se sozinho, preferiu deixar pra lá. Afinal, não seria o primeiro policial a passar por frouxo.

Começou a demonstrar, e perceber em si mesmo, sinais de pânico e estresse intenso. Não fazia calor, e mesmo assim sentia seu terno a lhe estrangular. Abria os vidros do carro, e ouvia lamúrias, cantadas ridículas, xingamentos, gritos e buzinaços. Fechava os vidros e sentia-se sozinho demais. Tudo que poderia querer em seu Coração era que o Super-Homem lhe tirasse daquela Vida. Ele próprio já desejara ser o Super-Homem, porém sem aquela tanga vermelha de fechar o trânsito aéreo. E aquele primeiro ponto de ruptura com a realidade, aquele cerne de quebra de eternidades, aquela semente de trigo novo, de que tanto já lhe falara Verônica, parecia querer rachar-lhe o crânio e abrir seu Coração, como o parto de um alien, em A Experiência.

O problema é que já havia se acostumado com a Eternidade da segurança, a trabalhar para a segurança das pessoas e vê-la como ideal para si. A brasa no peito já lhe era visível e sensível em todos os sentidos, principalmente no sentido do que lhe parece não fazer sentido algum. Será que, algum dia, o que lhe parece sem nexo vai lhe mostrar o nexo verdadeiro? Intuiu que a resposta poderia estar em seu relógio, precisamente no intervalo entre um segundo e outro, o qual não se deixa capturar. No dia em que pudesse fotografar tal lapso de tempo, talvez poderia isolar sua eternidade e entender porque sua Vida ainda tinha de ser assim, insossa, ou não…

Enfim, chegou ao seu trabalho, com um aspecto zumbi, mortificado por duas horas que levara para cruzar São Paulo. Cumprimentava sempre, embora com ar demasiado formal, a todos os colegas com os quais cruzava pelos corredores da Delegacia em que estava lotado. Mas, nesse dia, como em outros poucos, seu cumprimento era num tom quase inaudível, e seu rosto destoava dos outros rostos, um pouco cadavérico. Morreu, e esqueceu de deitar! Era isso! Era comum surpreender isso em vários paulistanos em dias úteis, mas nunca agradável, nunca mesmo.

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